Você já ouviu falar no Vipassana?
Vipassana, que significa ver as coisas como efetivamente são, é uma das técnicas de meditação mais antigas da Índia. Foi redescoberta por Gótama, o Buda, há mais de 2500 anos e era ensinada como remédio universal para doenças universais, ou seja, uma Arte de Viver. Esta técnica não sectária tem por objetivo a total erradicação das impurezas mentais e a resultante mais elevada felicidade da libertação completa.
Vipassana é um caminho de autotransformação através da auto-observação. Concentra-se na profunda interconexão entre a mente e o corpo, que pode ser experimentada diretamente pela atenção disciplinada das sensações físicas que formam a vida do corpo e que continuamente interconectam e condicionam a vida da mente. É esta jornada baseada na observação, na auto exploração da raiz comum da mente que dissolve a impureza mental, resultando em uma mente equilibrada repleta de amor e de compaixão (texto completo aqui).
Existem pelo menos 264 centros de meditação Vipassana no mundo, além de 129 locais fora dos centros onde os cursos de 10, 20, 30 e até 45 dias são oferecidos. Acabo de voltar do meu segundo curso de 10 dias, o primeiro fiz em 2022.
Durante o curso somos orientados a manter o que é chamado de nobre silêncio. Falamos somente se for realmente necessário, com a pessoa que coordena para informar alguma necessidade ou com o professor, em horários específicos do dia e para tirar dúvidas sobre a técnica. São 10 horas de meditação diária, em média. Acordamos às 4h e vamos até às 21h (entre intervalos de refeições e descanso).
É bem puxado, e nos primeiros dias me perguntava o que é que eu estava fazendo ali novamente. Isso pois, nos últimos dois anos principalmente, venho me conectando com o prazer, o relaxamento, a criatividade e o acolhimento como elementos de condução da vida que tem uma característica mais feminina, eu diria, em termos de energia. E ainda que eu já soubesse da disciplina exigida, da característica mais masculina do curso, o contraste inicial foi um grande choque.
Ao longo do curso fiz as pazes com essa resistência, entendi os porquês de eu estar vivendo essa experiência de tanto contraste e me senti muito grata. De fato, sempre estamos onde precisamos estar e compreendo totalmente que existem motivos para essa rotina mais rígida, com muitas regras e muitos “não pode”.
É difícil colocar uma experiência como essa em palavras pois a minha perspectiva é apenas uma entre milhões de perspectivas, e que também muda ao longo do tempo conforme vou elaborando tudo o que vivi. Porém, existem alguns aspectos que sinto que podem contribuir com o que a Curiosa deseja compartilhar com o mundo, que é a sustentação de um campo fértil de experimentação e expansão, que foi exatamente o que fiz lá. Compartilharei um desses aspectos com você hoje.

Voltei do Vipassana sentindo muito amor. Me firmei no caminho de vida que tenho escolhido nos últimos anos, na forma que desejo viver meus dias e, com as bençãos do nobre silêncio, pude dar mais um passo na minha direção. Antes de eu ir, me perguntavam: “Como você ficará dez dias sem falar e sem o celular?” Essa foi a parte mais fácil, para ser bem sincera. Não senti falta do celular em nenhum momento. E quanto a falar, de vez em quando me dava vontade, mas essa vontade era nada comparado ao que o silêncio estava me proporcionando.
Voltei em um domingo, e na segunda meditei logo ao acordar para manter a prática. Estava animada para saber como seria uma semana mais calma.
“Errei feio errei rude”, como diz o meme. 😅
A semana foi caótica, imprevistos no trabalho e na sexta-feira eu tava só o pó da rabiola. A sensação era a de que o que eu tinha aprendido havia ficado em um mundo bem distante, e que definitivamente não era aquele em que eu estava vivendo agora.
Um contraste tão grande que comecei a me questionar se conseguiria me ancorar em um estado mais pacífico interiormente, diante desse mundo acelerado em que vivemos.
Mas muita calma nessa hora, é aqui que entra o pulo do gato.
Foi uma semana difícil? Super. Eu gostaria que tivesse sido diferente? Sem dúvidas. Mas a forma com que passei por ela foi muito, mas muito diferente da forma com que já passei em outros momentos. Consegui dar conta dos imprevistos, divulguei um evento presencial, dormi e me alimentei bem, me acolhi nos momentos de pico e aproveitei pra descontar tudo o que estava sentindo de esquisito na academia… Rs.. A mente estava super agitada, a meditação não fluiu tão bem quanto eu gostaria e as emoções estavam bem mexidas, mas comparando com o passado, foi fantástico.
E é aí que tá.
Um dos temas centrais do Vipassana é desenvolver uma profunda conexão com a lei da impermanência. Assim como as coisas surgem também desaparecem, e experimentar o que acontece sem aversão ou apego a elas é o que faz com que não geremos o que é chamado de “Sankaras” — do sânscrito samskara — que são memórias ou impressões mentais geradas por aversão ou apego a algo, e que tem como consequência o sofrimento, pelo fato de ficarem armazenadas em nosso inconsciente e direcionarem nossos comportamentos futuros.
O que a meditação faz, a meu ver, independente de ser Vipassana ou não, é treinar a nossa mente. Para existir no mundo de um modo que haja paz interna independente das circunstâncias e considerando a interdependência que acontece entre nós e a vida. A experiência dessa semana me trouxe diversos elementos para aprofundar ainda mais o entendimento do processo criativo de tecermos a nossa experiência de vida, que é uma das bases do que desenvolvo no Ateliê de Si. Pensamos, sentimos, agimos e existimos na vida de formas que talvez hoje já não façam mais sentido, mas tecer um novo jeito de existir precisa incluir esse lugar de interdependência.
Em um ambiente controlado como aquele onde tenho quase zero interferência do mundo externo, a passagem do tempo ganha um outro ritmo, e nesse outro tempo diferentes portas de compreensão são abertas. Atravessamos essas portas, mas é preciso reaprender a existir nesses novos lugares acessados.
Reaprender a existir é como uma rosa a desabrochar, um bebê a se formar ou um sonho a se realizar. Leva tempo, pede o nosso envolvimento mas não só. Inclui a participação da vida. Não é “somente” uma decisão que se toma acompanhada de uma ação em sua direção que faz algo acontecer. Existe essa grande interdependência em tudo o que existe, e esse é um dos maiores aprendizados que tenho elaborado nessa experiência que vivi.
O de desenvolver tão profundamente a conexão com a impermanência da vida a ponto de eu conseguir me entregar à ela sem medo do que virá a seguir, com a fé de que a realidade é perfeita do jeito que é, e de que os desafios também são a vida acontecendo, ainda que não pareça. Faço a minha parte cuidando de mim e daquilo que se apresenta. Caminho intencionalmente em direção a como desejo me sentir, do que desejo experimentar e de como desejo viver meus dias, mas faço isso de um lugar de soltura e dançando conforme uma música que por vezes, me arrasta para um lugar de descrença, cansaço e completo desânimo.
Não é porque medito ou porque acessei um lugar bonito dentro de mim mesma que os desafios não mais existirão. O que muda é que agora posso lidar com eles a partir desse lugar bonito que conheci.
Abraço o que chega, deixo ir o que precisa partir. Sustento o caminho que desejo trilhar, apesar de.
Impermanência.
Sigo sonhando com o cuidado de não tornar meus sonhos grandes pesadelos. Abraço as semanas desafiadoras, fazendo o melhor que posso e sabendo que estou criando artesanalmente um estado pacífico de ser que me pede prática. Escolho utilizar o desafio como matéria prima, ainda que haja resistência. Porque não é fácil mesmo.
Solto a necessidade de controle, dia após dia, essa que acredita que as coisas deveriam acontecer a minha maneira. Calço as botas do amor e da compaixão e atravesso os buracos, pedras, desvios e curvas do caminho sabendo que eles me ajudam a refinar a minha arte.
Sinto que o poder dos desafios é muito mais amplo do que o de enfrentar, encarar ou superar. Eles carregam o grande poder de nos ajudar a desenvolver virtudes — que não são desenvolvidas somente através deles mas, que também são caminho, quando assim for preciso. Desenvolver virtudes como tesouros que dão suporte e elevam a nossa jornada. Amor, compaixão, coragem, fé e diversas outras, que nos conectam a uma vida mais plena de sentido e significado.
Encerro a edição de hoje compartilhando as mais belas energias de tudo o que vivi nesses dias, desde o meu coração. Que o amor e a alegria estejam sempre contigo, e que a beleza da vida perfume o seu caminho, apesar de.
Obrigada pela sua presença aqui.
Patrícia Burger.
Recados da Curiosa
Se você ficou com vontade de saber mais sobre o Ateliê de Si, te convido a dar uma espiada no site ou clicar no botão abaixo para agendarmos um bate-papo gratuito para nos conhecermos. Será um prazer fazer parte da tua caminhada.
Se você ficou com vontade de saber mais sobre o Vipassana, esse é o site oficial. Os cursos são totalmente gratuitos, mantidos por doações. Ao final do curso você pode fazer uma doação no valor que puder, e tem várias pessoas que fazem doações mensais.




Tenho muita vontade de fazer o retiro Vipassana. Sei que no interior existe o de 3 dias, o que seria um começo, porque tenho um pouco de medo de surtar com um maior. Sou tãããooo falante, que quando disse para minha terapeuta que queria ir para um retiro desses, ela riu. Hahahaha. Obrigada por compartilhar, Pati. Você trouxe reflexões importantíssimas aqui. Há tanta gente falando em qualidade de vida hoje em dia, mas a maior parte fala da tríade alimentação-exercícios-sono, mas falta muito conteúdo sobre o autoconhecimento, a meditação, o abraçar o que a vida nos traz, sendo bom ou ruim. O tal do "wellness", a meu ver, começa aí.
meu marido fez o retiro de 20 dias e sempre me fala como foi transformador e o quanto acredita que eu desfrutaria da experiência!
teu relato me lembrou de novamente colocar isso no radar, obrigada! 🤎